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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Esperança



Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ESPERANÇA...

Mario Quintana


Desejando um 2013 cheio de Esperança para todos os seguidores de Quintana...

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Encontro



Subitamente na esquina do poema, 
duas rimas olham-se atônitas, comovidas, 
como duas irmãs desconhecidas..."

Mario Quintana


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quarta-feira, 14 de março de 2012

O dia abriu seu pára-sol bordado



O dia abriu seu pára-sol bordado
de nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.
-
Depois surgiu, no céu arqueado,
a Lua – a Lua! – em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
parou, ficou a olhá-lo admirado…
-
Pus meus sapatos na janela alta,
sobre o rebordo… Céu é que lhes falta
pra suportarem a existência rude!
-
E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
que são dois velhos barcos, encalhados
sobre a margem tranquila de um açude…


Mario Quintana

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sábado, 30 de julho de 2011

Um Rio... de saudades


Feliz Aniversário para Quintana... com um Rio de Saudades.

O Rio

A morte é um rio onde a gente
Embarca de olhos fechados
Se queres partir contente
Nada deixes deste lado.
É deste lado de cá
Que moram nossos cuidados.
Penas que amor nos deixou
São penas que o vento trouxe
São pelo vento levadas.
Fecha os olhos bem fechados
Basta de tanta rima em "ados"
Dorme o teu sono profundo
Longe, cada vez mais longe
Deste mundo e seus cuidados.


Mario Quintana

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

POEMA TRANSITÓRIO



Eu que nasci na Era da Fumaça: - trenzinho
vagaroso com vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha pobre
para comprar
pastéis
pés de moleque
sonhos
- principalmente sonhos!
porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando maravilhosas viagens
e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando
sempre... nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como essa vida é urgente!
... no entanto
eu gostava era mesmo de partir...
e – até hoje – quando embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.


Mario Quintana

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Viver



Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!


Mario Quintana - Baú de Espantos

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Pequeno inventário



Os cabelos encaracolados das chamas
Os lisos cabelos do vento
O cabelo rente da grama

Os grandes pés ausentes dos deuses de pedra
Os pés volantes do medo
Os pés ridiculamente em enquadro dos assassinados.

Os meus dedos em leque onde se incrustam as estrelas
Os meus dedos em grade
Os meus dedos em grade
Os meus dedos em grade, ah, que eu não
consigo atravessar!


Mario Quintana

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

AS COVAS




O bicho,
Quando quer fugir dos outros,
Faz um buraco na terra.

O homem,
Para fugir de si,
Fez um buraco no céu.



Mario Quintana - Nova Antologia Poética

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Presença


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos




Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!


Mario Quintana (Quintana de Bolso)

sábado, 17 de julho de 2010

O Tempo


O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós, para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho paralítico a tocar a campainha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram...


Mario Quintana


Ilustração: José Gomes

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Jardim Interior


Todos os jardins deviam ser fechados,
Com altos muros de um cinza muito pálido,
Onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.

O que mata um jardim
Não é mesmo alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim
É esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.



Mario Quintana

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Vida


Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


Mario Quintana

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bilhete com endereço


Mas onde já se ouviu falar
Num amor a distância,
Num (tele-amor)?!
Num amor de longe...
Eu sonho é um amor pertinho
Um amor juntinho...
E, depois,
Esse calor humano é uma coisa
Que todos - até os executivos - têm.
É algo que acaba se perdendo no ar,
No vento
No frio que agora faz...
Escuta!
O que eu quero,
O que eu amo,
O que desejo em ti

É o teu calor animal!...


( Baú de espantos)

quinta-feira, 18 de março de 2010

A casa em ruínas


Uma única porta

No último muro de uma casa em ruínas.

Cuidado...

Quem atravessar essa porta, à noite,

Pode ficar para sempre no Outro Mundo!


Mario Quintana

Lunar


As casas cerraram seus milhares de pálpebras. As ruas pouco a pouco deixaram de andar. Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças. Tudo está sob a encantação lunar... E que importa se uns nossos artefatos lá conseguiram afinal chegar? Fiquem armando os sábios seus bodoques: a própria lua tem sua usina de luar... E mesmo o cão que está ladrando agora é mais humano do que todas as máquinas. Sinto-me artificial com esta esferográfica. Não tanto... Alguém me há de ler com um meio sorriso cúmplice... Deixo pena e papel... E, num feitiço antigo, à luz da lua inteiramente me luarizo...

Mario Quintana

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Os degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

(Baú de Espantos)


Figura: Magritte - La Victoire

DIA DE CHUVA



Dia de chuva
É para a gente rasgar cartas antigas...
Folhear lentamente um livro de poemas...
Não escrever nenhum...



(Preparativos de viagem)



Figura: Laura Den Hertog - Girl

sábado, 26 de dezembro de 2009

MAGIAS


Conheço uma cidade azul.

Conheço uma cidade cor de ferrugem.

Na primeira, há helicópteros pairando...

Na segunda, espiam de seus esconderijos os olhos das ratazanas.

No entanto

é a mesma cidade

e,

onde a gente estiver,

será sempre uma alma extraviada em labirintos escusos

ou, então,

uma alma perdida de amor...

Sim! Por ser habitado por almas

é que esse nosso mundo é um mundo mágico...

onde cada coisa – a cada passo que se der

vai mudando de aspecto...

de forma

de cor...

Vai mudando de alma!



Mario Quintana

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Astrologia


Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino
A minha estrela vai seguindo além...

— Meu Deus, o que é que esse menino tem? —
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? É uma estrela em desatino...
E nos desentendemos muito bem!

E quando tudo parecia a esmo
E nesses descaminhos me perdia
Encontrei muitas vezes a mim mesmo...

Eu temo é uma traição do instinto
Que me liberte, por acaso, um dia
Deste velho e encantado Labirinto


Este poema foi musicado por Lui Coimbra, e está no seu CD "Ouro e Sol".

Vale a pena ouvir.


A foto - Visconde de Mauá - RJ/MG