sexta-feira, 17 de julho de 2009

OS NOMES




Como não lhes interessa o que parece inútil, os campônios não dão importância às flores do campo. É o que parece. Mas a gente fica a perguntar-se como é que essas flores silvestres conseguiram então ter nomes populares: margaridas, amores-perfeitos, coisas assim!


(Porta Giratória)

O poeta dedicou-lhe um poema:




Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.
Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!


Manuel Bandeira

Ilustraça: Faccincani Giardino

Sem sapatos


Tão Linda e Serena e Bela



Tão lenta e serena e bela e majestosa
vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção
A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

Mario Quintana

Foto: A rua onde eu nasci.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vales




Na época em que trabalhava na Editora Globo ele andava sempre duro. O salário terminava bem antes do fim do mês, vivia pedindo vales de adiantamento. Em determinado dia, o caixa chiou:
- Mas seu Mario, o senhor já tem um monte de vales!
Quis saber, com aquele sorriso maroto:
- Afinal, são vales ou são montes?

Do livro “Ora Bolas – O humor cotidiano de Mario Quintana” de Juarez Fonseca

Um velho tema


Há mortos que não sabem que estão mortos - eis um velho tema desses relatos fantásticos e fantasmais que a gente lê sem cansar nunca. Como se não houvesse coisas muito mais impressionantes em nosso próprio mundo! Uma história, por exemplo, que começasse assim: há vivos que não sabem que estão vivos...


Mario Quintana
Ilustração -Edward Munch

Um poço de ternura


Às vezes, era temperamental, imprevisível, capaz de sumir, na presença de quem quer que fosse, a cavalo de uma espiral de seu inapagável cigarro. Paciência! Mesmo assim, lembro inúmeros encontros, sobretudo os dos últimos dez anos de vida, quando descobri que havia dentro de Quintana um poço de ternura, também para os amigos.
Sua personalidade magnética produzia, de modo perdulário, poesia falada. Em qualquer encontro com amigos, surgiam anedotas e provérbios exemplares. Era frasista inveterado, da linhagem de Otto Lara Resende, alguém precisava sair atrás dele anotando. Desconcertava com o raciocínio analógico, virando o senso comum de ponta-cabeça.
Em seu espelho mágico, os leitores saíam transfigurados: "Sorri com tranqüilidade/ Quando alguém te calunia./ Quem sabe o que não seria/ Se ele dissesse a verdade...".
Divertia-se inventando histórias e assustava os interlocutores ao demorar a esclarecer que eram mentiras.
Apresentava um afiado radar da aproximação dos chatos. "Identificava um chato a distância, especialmente os aduladores sem conhecimento de causa. Trocava de calçada se preciso", recorda Elena.

Armindo Trevisan, poeta gaúcho, fala sobre o amigo Mario Quintana
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