quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Um Passeio na Mata


Ouço, num primitivo espanto, os gritos mais insólitos. Não sei o nome de nenhum desses pássaros, de nenhuma dessas árvores. Olho, agora, esta flor: apenas sei que é amarela. Meu pensamento, ou seja lá o que for, é simplesmente composto de adjetivos, como nos primeiros dias da Criação.

Mario Quintana (Caderno H)

Poeminha Sentimental



O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora,
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio da vida!
No entanto, Maria, o meu amor
É sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana

sábado, 29 de agosto de 2009

Só se deve morrer de puro amor...


Nunca ninguém sabe se estou louco para

rir ou para chorar.

Por isso o meu verso tem

Esse quase imperceptível tremor...

A vida é louca, o mundo é triste:

Vale a pena matar-se por isso?

Nem por ninguém!

Só se deve morrer de puro amor...


Mario Quintana

A casa fantasma


A casa está morta? Não: a casa é um fantasma, um fantasma que sonha com a sua porta de pesada aldrava, com os seus intermináveis corredores que saíam a explorar no escuro os mistérios da noite e que as luas, por vezes, enchiam de um divino assombro... Sim! agora a casa está sonhando com o seu pátio de meninos pássaros. A casa escuta... Meu Deus! A casa está louca, ela não sabe que em seu lugar se ergue um monstro de cimento e aço: há sempre uma cidade dentro da outra e esse eterno desentendido entre o Espaço e o Tempo. Casa que teimas em existir – a coitadinha da velha casa! Eu também nunca consegui afugentar meus pássaros.


Mario Quintana

O ponto de interrogação


Que artista teria inventado o nosso ponto de interrogação? Ele já tem a forma de uma orelha à escuta

As bruxas de pano



As bruxas de pano

Tão maternalmente embaladas

Pelas menininhas pobres

São muito mais belas

Do que as bonecas suntuosas como princesas - orgulho das vitrinas...

Essas humildes bruxas de pano

Com seus olhinhos de conta

Suas bocas tão mal desenhadas a tinta

São mais belas porque mais amadas!


Mario Quintana

sábado, 15 de agosto de 2009

Nomes Feios



Início de mais uma madrugada. Mario chega à pensão em que morava, na Barros Cassal, perto da Avenida Independência, e é mal recebido pelos cachorros. Reage aos latidos com todos os palavrões disponíveis. Na calçada, os pintores Waldeny Elias e Gastão Hofstaetter, que passaram a noite bebendo com ele e vieram deixá-lo em casa, assistem à cena. Em meio à gritaria, abre-se a janela e surge a dona da pensão:
- Mas o que é isso, seu Mario! O senhor, um homem tão culto, dizendo essas barbaridades!
Ele se defende:
- É que a senhora não sabe os nomes que os seus cachorros estão me dizendo…