sábado, 26 de dezembro de 2009

MAGIAS


Conheço uma cidade azul.

Conheço uma cidade cor de ferrugem.

Na primeira, há helicópteros pairando...

Na segunda, espiam de seus esconderijos os olhos das ratazanas.

No entanto

é a mesma cidade

e,

onde a gente estiver,

será sempre uma alma extraviada em labirintos escusos

ou, então,

uma alma perdida de amor...

Sim! Por ser habitado por almas

é que esse nosso mundo é um mundo mágico...

onde cada coisa – a cada passo que se der

vai mudando de aspecto...

de forma

de cor...

Vai mudando de alma!



Mario Quintana

PREGUIÇA


Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária.

Já viram desconfiança igual?

Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.


(Caderno H)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Estufa



Que imaginação depravada têm as orquídeas! A sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas formas, combinações incríveis, como quem procura uma volúpia nova, um sexo novo...


Mario Quintana

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Astrologia


Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino
A minha estrela vai seguindo além...

— Meu Deus, o que é que esse menino tem? —
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? É uma estrela em desatino...
E nos desentendemos muito bem!

E quando tudo parecia a esmo
E nesses descaminhos me perdia
Encontrei muitas vezes a mim mesmo...

Eu temo é uma traição do instinto
Que me liberte, por acaso, um dia
Deste velho e encantado Labirinto


Este poema foi musicado por Lui Coimbra, e está no seu CD "Ouro e Sol".

Vale a pena ouvir.


A foto - Visconde de Mauá - RJ/MG



sexta-feira, 6 de novembro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Canção do dia de sempre




Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!....

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...



Mario Quintana

Alma Errada


Há coisas que a minha alma, já tão mortificada, não admite:

assistir novelas de TV

ouvir música POP

um filme apenas de corridas de automóvel

uma corrida de automóvel num filme

um livro de páginas ligadas

porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:

espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de virgindades...

E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones

fugir desesperada

me deixarás aqui,

ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,

comendo o que todos comem.

A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até que minha pobre alma

fora destinada ao habitante de outro mundo).

E ligarei o rádio a todo volume,

Gritarei como um possesso nas partidas de futebol,

Seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.

E apenas sentirei, uma vez que outra,

a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido...



Mario Quintana