sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um ano de blog



Julho é, para mim, um mês de grandes alegrias, pois nele eu nasci, nele Quintana nasceu e nele nasceu este blog.
Leio Quintana como quem busca estrelas, procuro a vida, a sutileza do espírito, a alegria da criação...
E você, querido leitor e seguidor deste blog, é que o torna tão especial, que passa por aqui e deixa seu carinho.
Obrigada a todos e Feliz Aniversário ao "Quintana é para Sempre".

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quinta-feira, 29 de julho de 2010

ANIVERSÁRIO DE QUINTANA 104 ANOS




Minha homenagem ao meu Poeta Quintana

CLIQUE NA IMAGEM DUAS VEZES PARA VER MAIOR.

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Presença


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos




Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!


Mario Quintana (Quintana de Bolso)

sábado, 17 de julho de 2010

O Tempo


O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós, para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho paralítico a tocar a campainha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram...


Mario Quintana


Ilustração: José Gomes

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Jardim Interior


Todos os jardins deviam ser fechados,
Com altos muros de um cinza muito pálido,
Onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.

O que mata um jardim
Não é mesmo alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim
É esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.



Mario Quintana

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Quintana, Quintanares



Mario Quintana, velhote buliçoso (quando o conheci), era surpreendente. Tudo nele me parecia engraçadíssimo. Insólito. Era um humorista.
Veio ao Rio – receber o prêmio do Pen Clube. E se hospedou no Hotel Flórida, o mesmo em que se hospedavam Gilberto Freyre e Mauro Mota. Havia as obras do metrô, na rua do Catete, Quintana telefonou do hotel: “Vocês não me avisaram que a cidade ainda não estava pronta”...
Fui a Porto Alegre numa delegação de escritores, para participar das festas dos seus setenta anos, 1976. Ele estava eufórico. Saltitante. Parecia um passarinho. Ficamos no City Hotel. Almoçamos lá com ele. Pediram-me que fizesse um discurso breve de saudação ao poeta, no fim do almoço.
Quando acabei, Quintana veio beijar-me. E disse que não faria um discurso de agradecimento, porque não sabia fazer discurso, nem gostava. Uma graça. Homem pitoresco. Todos aplaudiram com fervor.
E houve um grande jantar, noutro hotel. Lá estava Guilermino César, com todo o seu sofrimento, homem espantoso. Nélida Piñon, Rachel Jardim, Fausto Cunha, Paulo Mendes Campos compunham a comitiva.
Mario Quintana pareceu encabulado com tantas manifestações. Era um garoto. E o seu lado menino a todos cativava. Tivera uma vida de longos sofrimentos. A bebida o subjugara, durante anos. Lara de Lemos, solícita, o conseguiu libertar dessas cadeias. E ele nunca mais bebeu. Ele, que era um homem de bar, um ser noturno.
No almoço, no jantar, bebeu apenas água mineral. Dizia, com naturalidade: “não bebo mais”. Sentamos lado a lado, num bar, fim de tarde – e ele não quis beber, nada, a não ser a sua água mineral, anódina.
Paulo Mendes Campos ali estava, o grande admirador da sua poesia, intimista, leve, filosófica, despretensiosa, quase humilde, cheia de silêncios e de amor.
Falava baixo. Como que pedia desculpas. Era um ser gentil. Não tinha nenhuma pose, nenhuma afetação. Era tudo leveza, espontaneidade, fluidez, comunicatividade modesta. E brincava com a vida. Sabia provocar a vida. Quintana cultivava o humor mais genuíno. Mais inocente. Mais puro.
Era um anjo algo boêmio. Um anjo displicente. Um anjo sabido. E ousava divertir-se com a vida, conosco, com os acontecimentos, com as palavras.


Por Antônio Carlos Villaça em seu livro: Os Saltimbancos da Porciúncula

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